Ilustração | Marcos Garcia

A Mandrágora ganha adaptação ambientada no Brasil dos anos 80

HQ de Milena Azevedo e Marcos Garcia transforma comédia de Maquiavel em uma história de terrir, com referências ao cinema e ao rock da década

26/08/2026 às 18:14

A peça A Mandrágora, de Nicolau Maquiavel, ganhará uma nova versão em quadrinhos pelas mãos da roteirista Milena Azevedo e do quadrinista Marcos Garcia. Na adaptação, a história deixa a Florença do século XVI para chegar a uma cidade do interior do Brasil na década de 1980, em uma releitura que combina a crítica social da obra original com elementos de terror e comédia, seguindo a proposta do chamado terrir.

Conhecido principalmente por O Príncipe, Maquiavel também se dedicou ao teatro e escreveu três peças cômicas. Entre elas, A Mandrágora, escrita por volta de 1518 e publicada pela primeira vez em 1524, tornou-se uma de suas obras mais conhecidas e é considerada uma das principais comédias do Renascimento.

A peça acompanha uma trama marcada por desejo, manipulação e interesses pessoais, colocando em cena personagens dispostos a ultrapassar os próprios princípios morais quando eles se tornam obstáculos para alcançar aquilo que querem. A história também constrói uma crítica à hipocrisia da sociedade florentina do século XVI e à Igreja Católica, especialmente por meio de personagens que encontram justificativas para contornar suas próprias convicções.

Ao longo dos séculos, A Mandrágora foi encenada em diferentes países e também ganhou uma adaptação para o cinema em 1965, dirigida por Alberto Lattuada. Agora, mais de 500 anos depois de sua criação, a peça chega aos quadrinhos com uma nova identidade brasileira.

A Mandrágora (1965) | Reprodução

A ideia partiu de Milena Azevedo, que procurava um clássico da literatura para adaptar para a revista Escafandro, da editora Ultimato do Bacon. A roteirista já conhecia a obra desde o final dos anos 1990, quando teve contato com a peça durante uma disciplina de Semiótica na faculdade. A escolha ganhou um significado especial em 2024, quando A Mandrágora completou 500 anos.

Ao revisitar a peça, Milena começou a desenvolver o roteiro pensando inicialmente em repetir com Germana Viana a parceria de Viúva Veneno, HQ lançada em 2022. O projeto chegou a ser aprovado pela editora, mas acabou adiado para 2025. Por questões pessoais, Germana não conseguiu assumir os desenhos naquele momento, e o roteiro ficou guardado até surgir uma nova oportunidade, desta vez com Marcos Garcia na arte. Germana, no entanto, continua ligada ao projeto e será responsável pela capa.

“Refletindo como seria a adaptação da peça para a HQ, logo entendi que uma releitura era o melhor caminho a seguir”, explica Milena.

A mudança de cenário é uma das principais características dessa releitura. Embora grande parte dos personagens mantenha elementos presentes na obra de Maquiavel, Lucrécia, Sóstrata e Frei Timóteo passaram por modificações para incorporar situações mais contemporâneas e cômicas.

A ambientação nos anos 1980 também abriu espaço para que Milena trouxesse referências culturais do período. Cinéfila, a roteirista inseriu alusões a filmes de terror, suspense e comédia, além de referências ao rock da época. Algumas delas aparecem na própria construção dos personagens. Dr. Nícias, por exemplo, foi inspirado no ator Jack Nicholson, enquanto Calímaco e Ligúrio carregam referências a Bruce Springsteen e Steven Van Zandt, respectivamente. A HQ também terá uma homenagem à cantora Rita Lee.

Nem todas as referências, porém, foram reveladas. A ideia é que o leitor descubra parte delas durante a leitura.

“O leitor certamente dará boas risadas, principalmente se ‘pescar’ as referências dos personagens e dos filmes”, afirma a roteirista.

A HQ terá 36 páginas em preto e branco, no formato de 17 x 26 centímetros, com impressão em papel offset de 90 gramas. O roteiro fica com Milena, enquanto Marcos Garcia assume os desenhos e Germana Viana assina a capa.

Para Garcia, um dos desafios foi construir visualmente a atmosfera dos anos 1980. O trabalho envolveu pesquisas e referências compartilhadas pela roteirista, incluindo imagens dos personagens, além de uma busca própria por artistas que marcaram os quadrinhos das décadas de 1980 e 1990, como Watson Portela, Mozart Couto, Horacio Altuna e Seabra.

A parceria entre Milena e Marcos também não é inédita. Os dois já trabalharam juntos em histórias curtas, o que ajudou a estabelecer uma dinâmica de criação baseada na troca constante.

“Faço a página, mostro pra ela e aí discutimos se tem algo a acrescentar ou arrumar”, explica Marcos.

Milena conta que costuma trabalhar dessa maneira com os desenhistas com quem colabora. Além de apresentar o roteiro, ela compartilha referências para personagens, roupas, acessórios e cenários, explica o tom pretendido para a história e, depois, deixa espaço para que o artista desenvolva suas próprias soluções visuais.

Ilustração | Marcos Garcia

“Numa HQ é fundamental que esse diálogo entre roteirista e desenhista ocorra, para que o trabalho fique redondinho para o leitor”, afirma.

Durante o desenvolvimento, alguns personagens também exigiram cuidados específicos. Foi o caso de Sóstrata, cuja caracterização precisou ser pensada para que uma situação presente na peça permanecesse dentro da proposta cômica da adaptação sem se tornar desrespeitosa.

Por trás da nova versão de A Mandrágora estão dois nomes com trajetórias ligadas à produção de quadrinhos no Rio Grande do Norte. Potiguar, Milena Azevedo é formada em História pela UFRN e mestre em Estudos Históricos Latino-Americanos pela Unisinos. Atua no mercado de quadrinhos desde 2005 como roteirista, diagramadora e letreirista, com trabalhos publicados no Brasil, em Portugal e em Angola.

Entre suas obras estão Visualizando Citações, Fronteira Livre, Haole, Amor em Quadrinhos, Aprendiz de Bruxa e Viúva Veneno. A autora também participou de projetos como Gibi de Menininha, vencedor de premiações como o Troféu Angelo Agostini e o HQMix. Em 2022, roteirizou Viúva Veneno e Oscar e o Pan de 87 para a Ultimato do Bacon. Desde 2025, também apresenta o podcast Cinematógrafo Delirante, dedicado à relação entre cinema e história.

Marcos Garcia, natural de Mossoró (RN), é ilustrador, designer e quadrinista. Sua trajetória começou nos anos 1990, quando fundou o fanzine Acunha. Desde então, publicou em títulos como Maturí e Epopéia Potiguar e participou de projetos como Visualizando Citações, Lovenomicon e Universo Zero.

Entre seus trabalhos estão Quando os Anjos Queimaram, Mata-me, Ó Deus e Lampião na Terra dos Santos Valentes. Em maio de 2026, lançou O Morcego e A obsessão do sangue, HQ inspirada nos poemas de Augusto dos Anjos. Garcia também atua na movimentação da cena de quadrinhos potiguar: desde agosto de 2024, organiza a Feira Quadrinhos na Pinacoteca, em Natal, e integra a comissão organizadora da Feira Quadrinhos no Parque, realizada no Parque das Dunas.

A publicação da HQ será viabilizada por meio de uma campanha no Catarse, criada para arrecadar o valor necessário para a impressão. Diferentemente de campanhas que estabelecem novas recompensas conforme a arrecadação aumenta, o projeto não possui metas extras para brindes ou conteúdos adicionais. O objetivo é mais direto: alcançar o valor da gráfica e, caso a meta seja atingida, garantir também o pagamento dos profissionais envolvidos na produção.

“Nossa campanha não possui metas, no sentido de ‘caso chegue a tantos reais vamos fazer tal brinde’, pois é uma campanha bem pé no chão, sem fru-fru. Reforçando o que falei, o foco principal é conseguir pagar a gráfica”, explica Milena.

A campanha está disponível no Catarse para quem quiser apoiar a publicação de A Mandrágora e acompanhar a transformação de uma comédia escrita há mais de cinco séculos em uma história ambientada no interior brasileiro dos anos 1980.

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