É curioso pensar em quantos filmes apresentam primeiros e segundos atos excelentes, mas tropeçam justamente na conclusão. O resultado é aquela sensação amarga de que o desfecho não fez jus ao restante da obra, afetando a experiência e a avaliação do público. Cara-de-Barro faz o caminho inverso: começa de maneira apressada, com exposição excessiva, coadjuvantes pouco interessantes e diálogos batidos, mas se transforma junto com seu protagonista, entrega uma experiência perturbadora.
Matt Hagen é um ator em ascensão cuja vida muda drasticamente após um episódio de violência que desfigura seu rosto. Sem perspectivas de recuperar a carreira e a própria aparência, ele se submete a um tratamento experimental que pode devolver sua antiga forma. O procedimento funciona, porém, traz consequências, transformando seu corpo e sua percepção da realidade em um pesadelo disforme.

Lançado em 2026, Cara-de-Barro é uma produção da DC Studios com distribuição da Warner Bros. Pictures. O longa é dirigido por James Watkins, com roteiro de Mike Flanagan e Hossein Amini, a partir de uma história de Flanagan. O elenco conta com Tom Rhys Harries no papel de Matt Hagen, além de Naomi Ackie, Max Minghella, David Dencik e Eddie Marsan.
O filme integra o DCU, universo compartilhado de produções da DC comandado por James Gunn e Peter Safran. Esta, porém, não é a primeira aparição do personagem neste universo: o Cara-de-Barro foi um dos vilões da primeira temporada de Comando das Criaturas.
Uma origem grotesca
O primeiro ato de Cara-de-Barro é, de longe, sua parte mais fraca. A narrativa corre para estabelecer os conflitos, apresenta situações de maneira expositiva e apresenta personagens secundários muito fracos. Algumas falas parecem retiradas de um manual de clichês do cinema, o que torna o inicio a coisa mais genérica que você possa imaginar.
Ao longo do filme, se você espera surpresa, não deveria. Ele é simples, previsível, mas em nenhum momento isso afeta o que ele tem a dizer. A situação muda quando Matt Hagen assume o protagonismo de sua própria tragédia e a história passa a explorar sua transformação. É aqui onde a produção encontra sua identidade, mergulhando em uma experiência de horror, grotesco, visceral e explícito.

Cara-de-Barro é nojento, extremamente desconfortável e, em diversos momentos, difícil de assistir. E isso é um belo elogio. O longa entende que a transformação de um homem em um monstro capaz de modificar a própria aparência não deve ser apenas uma poder de um universo de heróis. Ele desfigura o que reconhecemos como humano, a perda progressiva da forma e da mente. O horror funciona justamente porque o filme não tem medo de explorar o aspecto repulsivo dessa mudança.
Diferente de um simples filme trash, com muito sangue jorrando, corpos cortados ao meio e transformações melequentas e deformadas, Watkins apostou em um realismo absurdo. Não sei se vocês já caíram naqueles vídeos de cirurgias reais, mas o filme passa a sensação de estar mutilando e deformando um corpo de verdade. É tudo tão verossímil que nem o meu cérebro, que costuma ser muito cético, conseguiu absorver aquilo como encenado.
A trama, por si só, não é nada original. Histórias sobre transformações físicas extremas, experimentos científicos que saem do controle e protagonistas consumidos pela vingança já foram contadas diversas vezes. A diferença está na maneira como esses elementos do body horror são combinados dentro da mitologia da DC. Em vez de tentar reinventar o gênero, a DC Studios encontrou seu espaço contando uma história já testada. Assim como fez com Coringa (2019).

A direção de James Watkins é protocolar. Não há grandes demonstrações de virtuosismo ou escolhas estéticas que elevem o longa, mas isso não significa que faltem boas ideias. Algumas das cenas de transformação são muito criativas ao utilizar o cenário, o posicionamento dos personagens e os cortes da montagem para alterar a aparência do protagonista sem depender excessivamente de efeitos digitais. São soluções simples, mas eficientes.
Excepcionalmente, é na cena da boate onde tudo o que o filme tem de melhor se une. Frenética e criativa, a sequência faz talvez o melhor uso de um transmorfo que já vimos no cinema.
Mesmo após uma cena dessas, Cara-de-Barro ainda fecha com chave de ouro. Me impressiona que após tanta coisa o filme não tentou transformar sua conclusão em um espetáculo megalomaníaco. Ele não precisou recorrer a uma ameaça gigantesca para justificar sua importância dentro do seu universo cinematográfico, como vem sendo o padrão nas últimas décadas. A história termina contando aquilo a que se propôs: a origem de um dos vilões do Batman.

Existe uma satisfação particular em assistir a um filme de super-heróis que compreende a dimensão de sua própria história e não tenta torná-la maior do que precisa ser. O desfecho respeita a trajetória apresentada. Pra bom ou pra ruim, é assim que termina. O que me lembrou um pouco o último filme de Resident Evil (2026).
No fim, Cara-de-Barro é um filme que cresce a partir do momento em que estabelece a trama central. A direção pouco inspirada impede que a produção alcance todo o seu potencial, que poderia até render uma indicação ao Oscar. Ainda assim, o horror corporal desconfortante, os efeitos visuais impressionantes e, principalmente, um encerramento satisfatório fazem do longa mais um acerto da DC.
Em um cenário onde tantas produções parecem incapazes de concluir suas histórias sem aumentar a escala dos acontecimentos, acompanhar a origem de um vilão do Batman sem que isso precise impactar o universo já é um mérito considerável.