Plataformas para registrar leituras e descobrir novas obras já fazem parte da rotina de leitores de livros, filmes e séries. Para os quadrinhos, porém, a variedade de edições, republicações e formatos torna essa organização mais complexa. É nesse cenário que surgiu o Gibizin, projeto independente criado por Pollux, desenvolvedor e fã de quadrinhos, que reúne catálogo de obras, diário de leitura, avaliações, análises, listas e recursos de interação entre usuários.
Inspirado na experiência do Letterboxd, o Gibizin foi pensado para acompanhar as diferentes formas de publicação e leitura de HQs, especialmente no mercado brasileiro.

“Eu sentia falta dessa experiência feita especificamente pra quadrinhos. Existem plataformas estrangeiras muito boas e bases gigantescas, mas eu sentia que a realidade brasileira acabava ficando meio distante”, conta o criador do site. “Um leitor brasileiro não lida só com a edição original americana de uma HQ. Ele pode ter lido um encadernado da Panini que reúne várias edições americanas, uma publicação antiga da Abril, uma edição da Mythos, um mangá da JBC ou da NewPOP, uma republicação, uma HQ independente comprada direto do autor ou financiada no Catarse. São realidades bem diferentes.”
Pollux define o Gibizin como uma mistura de “estante digital, diário de leitura e rede social”. Na plataforma, o usuário pode registrar o que já leu, acompanhar leituras em andamento, organizar o que pretende ler, avaliar obras, escrever análises, montar listas e seguir outros leitores.
Um formato projetado para quadrinhos
Diferentemente de plataformas que adaptam estruturas criadas para livros, o Gibizin organiza o catálogo considerando as diferentes formas de publicação dos quadrinhos.
“Não é uma plataforma de livros que também aceita HQ e não é simplesmente um banco de dados. Quadrinhos têm umas particularidades muito próprias. Uma mesma obra pode ter edição mensal, encadernado, republicação, edição brasileira, edição original, diferentes editoras, fases criativas, volumes de mangá e por aí vai.”
Para organizar essa diversidade, a plataforma trabalha com diferentes níveis: obra, fase (ou run) e publicação.
“Por exemplo, Batman como obra não é a mesma coisa que uma determinada fase criativa. E nenhuma dessas coisas é exatamente o mesmo que um encadernado específico lançado no Brasil. São coisas relacionadas, mas diferentes.”
A estrutura também considera características da história editorial brasileira, marcada por republicações, mudanças de editoras e diferentes formatos. Segundo Pollux, embora o sistema permita criar estruturas para representar essas particularidades, a identificação de informações sobre edições antigas ou pouco conhecidas muitas vezes depende do conhecimento de leitores familiarizados com a história dos quadrinhos no país.
Esse conhecimento passou a fazer parte da construção do catálogo, especialmente na identificação de publicações antigas ou menos conhecidas.

Produção brasileira e descoberta de novas leituras
A organização do catálogo também está relacionada a outro objetivo do Gibizin: facilitar a descoberta de obras que nem sempre chegam ao público por canais tradicionais. Além das grandes editoras e dos mangás, o mercado brasileiro reúne produções nacionais e independentes distribuídas por eventos, financiamento coletivo e vendas diretas.
Para Pollux, a variedade de caminhos para publicação ampliou o espaço para autores independentes, mas também tornou mais importante criar formas de conectar essas obras aos leitores.
“Eu acho o independente especialmente interessante. Hoje um autor não precisa necessariamente esperar uma grande editora decidir publicar o trabalho dele. Tem Catarse, venda direta, eventos, redes sociais, foram surgindo outros caminhos. Então existe uma produção muito viva.”
O desafio, portanto, não está apenas em registrar essas publicações no catálogo, mas também em fazer com que elas sejam encontradas. Para o desenvolvedor, leitores que não acompanham eventos, editoras independentes ou os perfis dos próprios autores podem acabar não tendo contato com parte dessa produção.
“Às vezes existe uma HQ brasileira muito boa sendo lançada e a pessoa que adoraria ler aquilo simplesmente nunca fica sabendo que existe.”
É nesse ponto que os recursos de interação do Gibizin se relacionam à estrutura do catálogo. Avaliações, listas, análises e perfis seguidos permitem que a descoberta aconteça a partir das próprias leituras e interesses dos usuários, criando caminhos entre obras diferentes.
A proposta é que o leitor não precise chegar à plataforma já sabendo exatamente o que procura. Uma leitura pode levar a outra por meio de uma recomendação, de uma lista criada por outro usuário ou simplesmente do acompanhamento de alguém com interesses semelhantes.
“Não quero só catalogar o que todo mundo já conhece. Quero que alguém possa entrar por causa de Batman, Homem-Aranha ou One Piece e depois, através de alguém que segue, descubra uma HQ brasileira independente que talvez nunca encontrasse sozinho.”
Segundo Pollux, esse processo já começa a aparecer entre os usuários. A comunidade reúne leitores com interesses diferentes, o que permite que conhecimentos e recomendações circulem entre grupos que nem sempre se encontram fora da plataforma.
“Tem leitor de mangá descobrindo super-herói, gente que conhece quadrinho nacional indicando independente, colecionador trazendo publicação antiga que pouca gente lembrava. Essa troca é muito legal.”
Essa dinâmica também amplia a função da plataforma. As informações inseridas e revisadas pela comunidade não servem apenas para organizar publicações já conhecidas, mas podem ajudar a preservar e tornar mais acessíveis obras que tiveram circulação limitada ou que fazem parte de momentos específicos da história dos quadrinhos no país.
Levando esse cenário em consideração, Pollux afirma que a experiência do Gibizin não precisa competir diretamente com plataformas estrangeiras, já que a ferramenta considera as particularidades do público brasileiro e concentra esforços justamente nisso.
“Eu não penso muito por esse lado de ‘quero substituir tal plataforma’. Existem projetos muito bons fazendo coisas diferentes e vários deles têm anos ou décadas de catálogo construído. (…) Eu quero fazer muito bem a experiência que eu imagino pro Gibizin. Catálogo de quadrinhos, registro de leitura, identidade pessoal, descoberta e comunidade, com uma atenção bem grande pro Brasil.”


De projeto pessoal a comunidade
O Gibizin começou como um projeto pessoal de Pollux, que continua responsável pelo desenvolvimento técnico da plataforma. Com o crescimento do serviço, usuários passaram a participar da revisão, moderação e organização das informações.
Segundo Pollux, essa participação surgiu de forma espontânea, a partir de pessoas que já utilizavam a plataforma e decidiram contribuir com conhecimentos específicos. Entre as atividades estão a moderação, a revisão de sugestões enviadas pelos usuários, a catalogação, a conferência de informações sobre publicações, a identificação de duplicatas e a correção de detalhes.
Ele destaca que a colaboração não surgiu a partir de uma equipe formal, mas do interesse de usuários que se identificaram com o projeto e encontraram diferentes formas de contribuir. A diversidade de conhecimentos também é apontada como uma das vantagens desse modelo, já que há participantes familiarizados com cada parte do catálogo.
As contribuições passam por revisão antes de serem incorporadas. A medida busca ampliar a participação dos usuários sem abrir mão do controle sobre as informações publicadas.
“Eu não quero que o Gibizin seja uma wiki completamente aberta onde qualquer alteração feita por alguém muda na hora o catálogo oficial. Quero que seja colaborativo, mas com curadoria.”
Essa participação dos usuários também mudou a forma como Pollux passou a enxergar o projeto. Com o crescimento da comunidade e o envolvimento dos leitores, o Gibizin deixou de ser visto apenas como uma iniciativa pessoal.
“Tem gente colocando histórico de leitura, listas, conteúdo e agora até o próprio tempo dentro de uma coisa que eu criei. Então eu comecei a olhar menos pro Gibizin como ‘meu projetinho’ e mais como um produto e uma comunidade que eu preciso tratar com bastante seriedade.”
Próximos passos
A participação da comunidade também acompanha uma nova etapa de desenvolvimento. O aplicativo do Gibizin está em construção, com prioridade para uma versão estável para Android. Depois, a intenção é avançar para o iOS.
Segundo Pollux, essa etapa envolve não apenas a criação de novas funcionalidades, mas também aspectos técnicos necessários para preparar o aplicativo para produção, como funcionamento dos links, notificações push, segurança, tratamento de erros, desempenho, monitoramento e testes em aparelhos reais.
Entre os próximos objetivos estão o aprofundamento do catálogo brasileiro, melhorias nos sistemas de descoberta e recomendação e maior espaço para quadrinhos independentes.
Mesmo com a expansão da plataforma, Pollux afirma que a prioridade é manter a qualidade da experiência e prefere avançar com menos funcionalidades, desde que sejam bem desenvolvidas. Para Pollux, o objetivo é fazer com que o Gibizin se torne uma ferramenta recorrente para quem lê quadrinhos, sem perder a identidade construída ao longo do projeto.
“Eu gostaria que ele fosse uma referência natural pra quem lê quadrinhos no Brasil. Não necessariamente ‘a maior base de quadrinhos do mundo’. Pra mim essa seria uma meta meio vazia. Eu preferia que alguém terminasse uma HQ e pensasse naturalmente ‘vou registrar no Gibizin’. Ou que alguém pensasse ‘não sei o que ler agora, vou dar uma olhada no Gibizin’. Se chegar nesse ponto, quer dizer que a plataforma realmente entrou na rotina das pessoas.”
A produção brasileira também ocupa parte importante desse objetivo.
“Também gostaria muito que ela ajudasse a dar mais visibilidade pra produção brasileira. Se uma pessoa entrar no Gibizin por causa de Batman e seis meses depois estiver lendo uma HQ independente brasileira porque descobriu através de outra pessoa na plataforma, pra mim isso já é um resultado enorme.”
O crescimento, porém, não deve acontecer a qualquer custo.
“Quero que cresça bastante, claro. Mas sem perder a identidade e principalmente sem perder a comunidade que ajudou ele a chegar até aqui.”