Sempre que a temporada de premiações começa, eu costumo ficar receosa com os filmes mais comentados. A expectativa cresce, o hype se intensifica e, na maioria das vezes, o resultado raramente corresponde ao que imagino. Felizmente, esse não foi o caso de Hamnet. O filme não apenas sustentou minha atenção como se impôs desde os primeiros minutos como uma experiência sensorial e emocional profunda.
Desde a cena de abertura, fiquei imediatamente impactada pela fotografia belíssima, marcada pela presença constante de elementos naturais e por composições de luz e enquadramento que me remeteram à emoção e à estética de uma pintura viva. Chloé Zhao, diretora e roteirista do longa, usa e abusa das cores como ferramenta narrativa, transformando a paleta visual em um dos pilares da experiência cinematográfica. As cores dentro do filme são um dos grandes destaques e, para alguém que sempre amou arte, cores e seus significados, não foi difícil identificar e compreender suas representações.

Agnes, interpretada por Jessie Buckley, surge grande parte do tempo vestindo tons de vermelho terracota, uma escolha que reforça sua profundidade emocional, espiritualidade e ligação quase orgânica com a natureza. Há algo de místico e esotérico em sua presença, como se o ambiente ao redor da personagem fosse uma extensão de sua própria essência. Em contrapartida, William, vivido por Paul Mescal, aparece quase sempre associado ao azul, cor que me remete a uma mente centrada, estoica, racional e tranquila, um completo oposto à personalidade selvagem, passional e livre de Agnes. Esse contraste cromático traduz visualmente o conflito e a complementaridade entre os dois.

A atuação de Jessie Buckley é, sem exagero, uma das coisas mais bonitas do filme. A forma como ela conduz Agnes, especialmente nos momentos de dor, me tocou profundamente. Na cena do parto da primeira filha de Agnes e William, me encontrei às lágrimas junto da protagonista. Buckley entrega uma performance tão crua e honesta que dissolve a barreira entre ficção e realidade, fazendo com que cada sentimento pareça vivido, e não apenas representado. Mesmo sabendo que a narrativa parte de um texto literário, a emoção nunca soa artificial.
Embora Hamnet dialogue diretamente com o romance de Maggie O’Farrell, o filme não se limita a reproduzir o texto. Pelo contrário, constrói uma reflexão própria sobre o luto, poderosa e sensível, que se afasta da literalidade para alcançar algo mais universal. A obra parte das poucas informações conhecidas sobre a vida de William Shakespeare, filho de um luveiro de Stratford-upon-Avon, casado com uma mulher mais velha, pai de três filhos e marcado pela perda precoce do único filho homem em meio a surtos de peste bubônica, para criar um retrato íntimo de uma família atravessada pela ausência, pela distância e pela dor.
Outro destaque absoluto para mim é Jacobi Jupe no papel de Hamnet. Sua atuação é de tirar o fôlego. Para um menino de apenas 12 anos, Jupe entrega uma interpretação assustadoramente madura, capaz de traduzir a complexidade emocional de uma criança profundamente apaixonada pelo pai e disposta a dar a própria vida pela irmã. Há ternura, entrega e dor em cada gesto. Mesmo nas cenas mais tristes, sua presença carrega uma beleza que me encheu os olhos, algo que muitos atores adultos, mesmo com anos de carreira, raramente conseguem alcançar. É uma performance extraordinária e um indício claro de um futuro promissor no cinema.

Misturando misticismo, fotografia de paisagem, uso expressivo das cores e uma trilha sonora belíssima, Hamnet se consolidou para mim como uma obra de extrema sensibilidade. Este não é um filme sobre Shakespeare, tampouco uma simples adaptação literária. É uma construção cinematográfica sobre família, o poder do feminino, o amor de uma mãe, a dor da perda e a beleza sombria que habita o luto.
Hamnet merece todas as indicações e vitorias possíveis.