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HQ potiguar concorre ao Prêmio Biblioteca Nacional

Era Uma Vez, de Cristal e Leander Moura, aborda a violência contra a mulher e concorre ao Prêmio Adolfo Aizen.

01/09/2026 às 11:20

A HQ independente Era Uma Vez, de Cristal Moura e Leander Moura, está entre as obras habilitadas para concorrer ao Prêmio Adolfo Aizen, categoria de histórias em quadrinhos do Prêmio Literário Biblioteca Nacional 2026. A obra, produzida no Rio Grande do Norte, disputa o reconhecimento ao lado de títulos publicados por diferentes editoras e projetos independentes.

Realizado pela Fundação Biblioteca Nacional, o Prêmio Literário é promovido anualmente desde 1994 e reúne 13 categorias. Em 2026, cada vencedor receberá R$ 30 mil. Na categoria de histórias em quadrinhos, as obras são avaliadas considerando critérios como qualidade, originalidade, contribuição à cultura nacional e criatividade no uso dos recursos gráficos.

O resultado está previsto para ser divulgado até 20 de outubro, no portal da Fundação Biblioteca Nacional e no Diário Oficial da União.

Uma releitura de Chapeuzinho Vermelho

Era Uma Vez parte de personagens e elementos conhecidos dos contos de fadas para construir uma narrativa de horror. A principal referência é Chapeuzinho Vermelho, mas a história também incorpora elementos de João e Maria.

Na HQ, a tradicional trajetória de inocência associada aos contos de fadas dá lugar a uma narrativa sobre resistência. A obra aborda temas como abuso sexual e violência contra mulheres, utilizando o horror para tratar de situações de violência e relações de poder.

A proposta também aproxima a história de uma discussão contemporânea sobre como os contos de fadas podem ser reinterpretados para tratar de questões que ultrapassam a fantasia. Em vez de reproduzir a jornada clássica da personagem, Cristal Moura e Leander Moura utilizam referências conhecidas para construir uma história marcada pelo medo, pela violência e pela resistência.

Capa de Era Uma Vez | Divulgação

A atmosfera da HQ foi influenciada por filmes como Animais Noturnos (2016), Pearl (2022) e Desconhecidos (2023), referências que ajudam a estabelecer o tom de horror da obra.

O projeto começou a partir de um experimento dos autores. A ideia inicial era criar o roteiro, desenhar e pintar a história utilizando exatamente 24 folhas de uma lata de papel para aquarela.

Reprodução

O trabalho acabou crescendo e ganhou novas páginas até se transformar na HQ que posteriormente foi submetida a um edital de incentivo cultural. O projeto recebeu financiamento da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura, por meio da cidade de Parnamirim, no Rio Grande do Norte.

A origem do projeto também evidencia um dos aspectos que marcam Era Uma Vez: a possibilidade de uma produção independente chegar a espaços tradicionalmente ocupados por obras de editoras maiores.

A edição possui 60 páginas, em formato 15 x 15 cm, além de uma galeria de capas variantes. A publicação também incorpora recursos de acessibilidade e interatividade, como QR codes que auxiliam pessoas com deficiência visual na leitura e uma playlist criada para acompanhar a experiência da HQ.

Produção independente no Prêmio Adolfo Aizen

A indicação ganha relevância pelo próprio percurso de Era Uma Vez. A obra chega à disputa do Prêmio Adolfo Aizen como uma produção independente, ao lado de trabalhos lançados por editoras e selos conhecidos do mercado brasileiro.

O edital do Prêmio Literário Biblioteca Nacional permite a participação de autores independentes, desde que as obras cumpram as exigências estabelecidas, como publicação no período determinado, Depósito Legal e ISBN. Em 2026, podem concorrer livros publicados entre 1º de maio de 2025 e 30 de abril de 2026.

A edição deste ano também registrou um número recorde de inscrições: foram 3.389 obras, das quais 2.149 foram habilitadas para concorrer ao prêmio após a primeira etapa.

Nesse cenário, a presença de Era Uma Vez coloca uma produção independente ligada ao Rio Grande do Norte em uma das principais premiações literárias do país. Mais do que a possibilidade de conquistar o prêmio, a seleção amplia a visibilidade de uma HQ que nasceu fora dos grandes circuitos editoriais e utiliza o horror para discutir violência contra mulheres.

A obra faz parte de uma trajetória de anos que Cristal Moura e Leander Moura vêm construindo nos quadrinhos.

A dupla publicou A Besta, em 2023, pela Editora Escribas. No ano seguinte, lançou de forma independente Carpe Diem, quadrinho que combina ficção científica e horror.

A nova HQ mantém a relação dos autores com o gênero, mas parte de uma referência ainda mais conhecida do imaginário popular. Ao transformar Chapeuzinho Vermelho em uma história de horror sobre violência e resistência, Era Uma Vez utiliza um conto de fadas como ponto de partida para uma narrativa contemporânea.

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