A primeira encíclica do Papa Leão XIV, intitulada Magnifica Humanitas, chamou atenção ao incluir uma referência direta ao universo de O Senhor dos Anéis, de J.R.R. Tolkien. O documento, que trata dos impactos da inteligência artificial e dos desafios éticos da tecnologia, cita um discurso associado ao personagem Gandalf.
No trecho em questão, o pontífice utiliza a passagem para refletir sobre a responsabilidade humana diante das transformações tecnológicas, especialmente em um cenário em que a IA pode contribuir para a desumanização das relações sociais e do trabalho.
A citação aparece no parágrafo 213 da encíclica e é atribuída a Tolkien como uma forma de ilustrar a ideia de que mudanças significativas não dependem de grandes gestos isolados, mas de ações contínuas e coletivas. O texto destaca a necessidade de “pequenos e constantes atos de fidelidade” como forma de resistência à desumanização provocada pelo avanço tecnológico:
“Não nos cabe dominar todas as marés do mundo, mas fazer o que está ao nosso alcance para socorrer os anos em que fomos colocados, arrancando o mal dos campos que conhecemos, para que aqueles que vierem depois possam ter uma terra limpa para cultivar.”
Então o Papa acrescenta sua própria frase logo em seguida:
“A civilização do amor não surgirá de um único gesto grandioso ou espetacular, mas da soma total de pequenos e constantes atos de fidelidade que servem como um baluarte contra a desumanização.”
Além da referência à cultura pop, a encíclica também aborda temas como limites para armas autônomas, teoria da guerra justa e críticas ao atraso histórico da Igreja em temas como a escravidão. O documento se soma a uma tradição de textos papais que orientam questões morais e sociais, ainda que não tenham o mesmo peso jurídico de uma bula papal.
J.R.R. Tolkien, autor de O Senhor dos Anéis, foi professor e filólogo britânico e construiu uma das obras mais influentes da literatura fantástica do século XX, popularizada mundialmente também por suas adaptações cinematográficas dirigidas por Peter Jackson. Tolkien era um católico profundamente devoto, que participava da missa diária e chamou O Senhor dos Anéis de “uma obra fundamentalmente religiosa e católica”. O Papa Francisco já o havia citado na Missa da Meia-Noite de Natal, em uma vigília eucarística e em uma carta pastoral.
Mas Leão XIV fez algo novo. Ele colocou Tolkien em uma encíclica, a forma mais elevada do ensinamento ordinário do magistério da Igreja. Isso significa que o discurso de Gandalf agora é, oficialmente, parte da Doutrina Social da Igreja. Ele será citado em seminários e trabalhos de teologia por décadas.
A menção a Gandalf por um pontífice em um documento oficial mostra o alcance cultural da obra de Tolkien, agora incorporada a um debate contemporâneo sobre ética, tecnologia e humanidade dentro da Igreja Católica.
Você pode baixar a encíclica completa aqui.