Reprodução | Prime Video

Sterling Point prova que séries teen ainda tem muito a dizer

Produção de Megan Park aposta em personagens bem construídos e mostra que o gênero pode ir além de romances e clichês

12/08/2026 às 16:39

Confesso: eu não sou fã das chamadas séries teen. Por muitos motivos, mas dois em específico costumam me afastar desse tipo de produção: personagens pouco desenvolvidos e roteiros que parecem existir apenas para levar o público de uma cena de sexo à outra. Não há nada de errado com romances, sensualidade ou mesmo com histórias adolescentes que abordem a descoberta da sexualidade, mas, quando esses elementos se tornam o principal atrativo de uma série, fica difícil não sentir que falta alguma coisa por trás deles.

Por isso, Sterling Point não estava exatamente no topo da minha lista. Foram os muitos comentários sobre a produção nas redes sociais que me fizeram deixar as ressalvas de lado e dar uma chance à série, especialmente depois de descobrir que se tratava de uma produção original criada e dirigida por Megan Park, cineasta que já havia demonstrado uma sensibilidade particular ao falar sobre juventude e amadurecimento.

E ainda bem que eu assisti.

Nos primeiros minutos, a história ainda parecia andar para alguns dos caminhos que eu esperava encontrar. Mas, antes mesmo de terminar o primeiro episódio, a série já havia conseguido me fazer rir com um humor muito bem colocado e, principalmente, me envolver com o drama familiar que sustenta toda a história.

A trama acompanha Annie Jacobson (Ella Rubin), uma jovem de 17 anos criada em Nova York ao lado do irmão gêmeo, Connor (Keen Ruffalo), pelo pai adotivo. Após a morte do avô, os dois descobrem que herdaram uma ilha no Canadá. O que inicialmente parece apenas uma mudança inesperada para um verão longe da cidade rapidamente se transforma em uma investigação sobre a própria família quando eles conhecem Ramona (Amélie Hoeferle), uma garota que vive na ilha e que guarda uma ligação muito mais profunda com Annie do que qualquer um poderia imaginar. A partir daí, segredos sobre adoção, maternidade, perdas e relações familiares começam a vir à tona.

Annie Jacobson (Ella Rubin), Connor (Keen Ruffalo) e Ramona (Amélie Hoeferle). (Reprodução | Prime Video)

É na relação entre Annie e Ramona que Sterling Point encontra sua melhor versão.

Annie poderia facilmente ser mais uma protagonista construída em torno do estereótipo da garota bonita, ingênua e constantemente sofredora por causa de algum garoto. Felizmente, não é isso que Megan Park entrega. Annie é engraçada, ambiciosa, madura e extremamente inteligente, mas continua sendo uma garota que ainda está tentando entender o próprio lugar no mundo. A personagem não precisa ser diminuída para que suas vulnerabilidades apareçam.

Boa parte do mérito está também em Ella Rubin, que consegue equilibrar os diferentes lados de Annie sem fazer com que eles pareçam contraditórios. Ela pode ser extremamente racional em um momento e completamente perdida no seguinte. Pode fazer uma piada no meio de uma situação absurda e, poucos minutos depois, carregar uma cena emocional sem transformar o sofrimento em melodrama.

Ramona, por outro lado, é quase o contraponto perfeito. Mais silenciosa, fechada e, em determinados momentos, até sombria, ela parece inicialmente muito mais difícil de decifrar. Conforme a história avança, porém, percebemos que aquela postura não é simplesmente uma característica de personalidade. Ramona é alguém que acumulou perdas e situações familiares complicadas e ainda não aprendeu completamente como lidar com tudo o que aconteceu.

A relação entre as duas é, para mim, o coração da série.

Mais do que o mistério envolvendo a família, é interessante observar duas garotas que não poderiam ser mais diferentes tentando compreender o que significa serem irmãs. A série encontra espaço para falar sobre abandono, pertencimento, luto e identidade sem transformar cada conversa em uma grande lição de moral. E isso faz diferença.

O elenco também é um dos grandes acertos. Existe uma química natural entre os personagens, algo fundamental para uma série que depende tanto das relações entre seus protagonistas. Connor, Ellis, Rory, Oona e os demais não parecem existir apenas para preencher espaços no núcleo adolescente. Mesmo quando a série utiliza estruturas conhecidas do gênero, existe a sensação de que aquelas pessoas possuem vida para além da trama principal.

Isso fica especialmente evidente nos romances.

Sterling Point entende que um relacionamento não precisa acontecer imediatamente para prender a atenção do público. O desenvolvimento gradual funciona muito bem, principalmente porque os sentimentos surgem a partir da convivência entre os personagens, e não apenas porque o roteiro decidiu que duas pessoas deveriam formar um casal.

O triângulo envolvendo Annie, Rory e Ellis, por exemplo, funciona justamente porque não transforma os três personagens em caricaturas. Existe conflito, dúvida e atração, mas também amizade e companheirismo.

Rory (Daniel Quinn-Toye), Annie (Ella Rubin) e Ellis (Jacob Whiteduck-Lavoie). Reprodução | Prime Video)

Ainda assim, meu casal favorito é, sem dúvida, Ramona e Oona.

As duas carregam situações familiares complicadas e, ao mesmo tempo, constroem uma relação que parece crescer naturalmente. Há uma delicadeza particular na maneira como a série trata esse romance. A sexualidade de Ramona não é apresentada como um problema a ser resolvido, nem como uma característica que precisa definir todas as suas ações. Ela simplesmente é uma garota que se apaixona por outra garota.

A perspectiva feminina de Megan Park dá ao relacionamento uma suavidade que pode parecer clichê quando resumida na frase “amor é amor”, mas que funciona muito bem na tela. A relação entre Ramona e Oona não precisa ser transformada em um grande discurso para justificar sua existência. O romance simplesmente acontece, com toda a insegurança, o carinho e a confusão que qualquer primeiro amor pode carregar.

Oona (Bo Bragason) e Ramona (Amélie Hoeferle). Reprodução | Prime Video)

Nos últimos anos, muitas produções parecem ter reduzido o gênero a uma combinação de atores adultos interpretando adolescentes, corpos perfeitamente enquadrados e relacionamentos usados como principal mecanismo para manter o espectador assistindo. Não há problema em uma série ser bonita ou sensual, mas isso não substitui um bom roteiro.

Sterling Point parece lembrar de uma coisa que, para mim, fazia muita falta nas séries tenn contemporâneas: pessoas jovens podem ser interessantes mesmo quando não estão beijando alguém.

A série resgata um pouco daquele espírito das produções teen do início dos anos 2000, quando romances, festas e situações constrangedoras conviviam com discussões mais sinceras sobre amadurecimento. É uma história sobre jovens que estão deixando a adolescência para trás sem saber exatamente o que existe do outro lado. Talvez essa seja a parte mais interessante da produção: o conflito não está apenas em descobrir quem você ama, mas em descobrir quem você é quando as certezas que tinha sobre sua própria vida começam a desaparecer.

Isso não significa, entretanto, que Sterling Point seja perfeita.

A série poderia ter trabalhado melhor algumas passagens de tempo e desenvolvido determinados elementos de seu universo. A história de Oona, por exemplo, deixa a sensação de que havia muito mais a ser explorado. O passado da mãe de Annie também poderia ter recebido maior atenção, assim como a maneira como Gordon criou Ramona e as consequências dessa relação para a personagem.

Essas lacunas são particularmente perceptíveis porque a série consegue fazer com que nos importemos com seus personagens. Quando uma produção cria esse vínculo, qualquer história que fica apenas na superfície acaba fazendo falta.

É compreensível que nem tudo tenha recebido o mesmo espaço. A série é uma produção original e precisa estabelecer personagens, relações e conflitos em apenas oito episódios. Ainda assim, isso não elimina a sensação de que alguns desses elementos poderiam ter sido melhor aproveitados.

No fim, essas falhas não são suficientes para diminuir o que a série faz de melhor.

Eu comecei Sterling Point desconfiada, pronta para encontrar exatamente os problemas que normalmente me fazem abandonar uma série teen. Três dias depois, havia terminado os oito episódios e já estava querendo uma segunda temporada. E talvez esse seja o maior elogio que eu poderia fazer.

Megan Park não reinventou o gênero. Ela fez algo mais difícil: pegou elementos que já conhecemos, romances, triângulos amorosos, segredos familiares, amizades, festas e personagens tentando descobrir o próprio lugar no mundo, e entendeu que o que realmente faz uma história funcionar não são os clichês, mas a maneira como eles são trabalhados.

Para quem, assim como eu, já está cansado de séries teen que parecem ter muito mais preocupação com a aparência de seus personagens do que com aquilo que eles têm a dizer, Sterling Point chega como uma agradável surpresa.

Nota: 4.5/5

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