Eu absolutamente amo documentários. Muitas vezes, acho que eles são uma das melhores formas de entender o mundo e as pessoas, seja pelos dados históricos, pelas informações escondidas em detalhes ou por aquelas pequenas coisas que poucas pessoas conhecem. Quando recebi o convite para assistir a Uma Odisseia Criativa: Em Busca de Tolkien, já imaginava algumas das coisas que encontraria na tela: vivências pessoais, memória, pesquisa e referências que ajudaram a moldar o vasto universo criado por J.R.R. Tolkien.
O que eu não esperava era encontrar algo que fosse muito além de uma investigação sobre o autor.
Produzido e apresentado por Érico Borgo, escritor, jornalista e cofundador do Omelete, o documentário parte da trajetória de Tolkien para investigar não apenas de onde vieram suas ideias, mas como ele transformava o mundo ao redor em matéria-prima para sua criatividade. A direção é de Laís Almeida, roteirista e produtora com experiência em direção criativa e entretenimento.
E talvez seja justamente aí que esteja um dos maiores acertos da produção.
Uma Odisseia Criativa não é uma biografia tradicional de Tolkien. O filme percorre Inglaterra, França e Suíça para reconstruir caminhos, lugares, experiências, perdas, pesquisas e referências que contribuíram para a criação de seu universo. A equipe passou por mais de 40 locações relacionadas à trajetória e às referências do escritor.
Mas, enquanto descobrimos Tolkien, também acompanhamos Érico se descobrindo.
Existe algo muito interessante na maneira como o documentário aproxima o processo de criação do escritor daquele vivido pelo próprio Borgo. Depois de mais de duas décadas trabalhando com cultura pop e entretenimento, ele coloca sua trajetória profissional em diálogo com a de Tolkien ao refletir sobre criatividade, trabalho, propósito e sobre o que acontece quando alguém decide mudar os caminhos que vinha seguindo.
Essa relação poderia facilmente tornar o filme autocentrado, mas, para mim, acontece justamente o contrário. Érico funciona como uma ponte entre o espectador e Tolkien. Ele não está apenas tentando explicar a criatividade do autor, mas também entender o que aquela trajetória pode dizer sobre sua própria vida.
E a direção de Laís Almeida é um espetáculo à parte.
A relação de amizade e conhecimento profissional entre ela e Érico ajuda a transformar a jornada em algo extremamente pessoal. A produção transita entre momentos de pesquisa e reflexão e situações muito mais espontâneas, como as confusões durante as gravações na Inglaterra, inclusive na hora de entender qual seria o lado correto para dirigir.
São momentos pequenos, mas fazem diferença. Eles quebram a formalidade e lembram que, antes de estarem diante de uma grande investigação sobre Tolkien, estamos acompanhando pessoas reais em uma viagem.
Essa leveza também impede que o documentário se torne cansativo.
Porque existe uma quantidade enorme de informação aqui. Tolkien passou décadas criando, revisando e ampliando seu universo, e o filme mergulha justamente nesse processo. O Legendário não se limita a O Hobbit e O Senhor dos Anéis, envolve histórias, poemas, mapas, línguas, mitologias e uma quantidade gigantesca de material que continuou sendo organizado e publicado após a morte do escritor.
O mais interessante é que a produção não tenta transformar esse processo em uma fórmula pronta para a criatividade. Em vez disso, mostra Tolkien observando, pesquisando, refletindo e transformando aquilo que encontrava em histórias.
E as imagens ajudam muito nessa construção.
As paisagens e os lugares relacionados à trajetória de Tolkien são lindíssimos e, em diversos momentos, de tirar o fôlego. A câmera percorre estradas, cidades, campos e regiões ligadas à vida e às referências do escritor, criando uma conexão visual entre o mundo real e aquele que ele construiu na imaginação.
Também gosto de como o documentário utiliza seus próprios recursos para falar sobre criatividade. Anotações, fotografias, ilustrações, materiais de pesquisa e outros elementos aparecem na construção da narrativa. Um filme sobre alguém que transformava palavras, lugares e experiências em histórias também encontra maneiras próprias de transformar pesquisa em imagem.
No fim, Uma Odisseia Criativa: Em Busca de Tolkien consegue equilibrar pesquisa, seriedade, humor e emoção. É um documentário interessado em entender Tolkien, mas que não esquece que existe uma equipe inteira criando sua própria experiência diante da câmera.
E isso fez a experiência passar muito rápido para mim. Quando percebi, já tinha acabado, e fiquei com aquela sensação maravilhosa de querer acompanhar qual será a próxima odisseia dessa dupla.
Se você é uma pessoa curiosa ou simplesmente se fascina pela possibilidade de descobrir como alguém passou décadas criando, revisando e expandindo um universo, mas não quer assistir a algo excessivamente acadêmico ou distante da beleza da fantasia, Uma Odisseia Criativa encontra um equilíbrio interessante entre informação e emoção.
Porque o documentário não convida apenas a descobrir a criatividade de Tolkien.
Ele também nos convida a questionar a nossa própria.