Demolidor: Renascido | Divulgação
Demolidor: Renascido | Divulgação

Crítica | Demolidor: Renascido encontra seu rumo na 2ª temporada mesmo andando em círculos

Segundo ano é consistente mas faz coadjuvantes brilharem mais que o protagonista

06/05/2026 às 4:27

A 2ª temporada de Demolidor: Renascido encerra em nota alta, com coragem e senso de consequência algo que nem sempre dialoga com o restante da temporada, que, embora superior à anterior, por vezes parece andar em círculos.

Lançada no Disney+, e liderada pelo showrunner Dario Scardapane, a série renasce [mais uma vez] com uma abordagem muito mais próxima da fase da Netflix. Dando continuidade direta aos eventos anteriores, Wilson Fisk (Vincent D’Onofrio), o Rei do Crime, agora ocupa o cargo de prefeito de Nova York. Sob sua gestão, a cidade vive um estado constante de vigilância, marcado pela atuação da Força-Tarefa Anti-Vigilante.

Wilson Fisk / Rei do Crime (Vincent D’Onofrio) e Daniel Blake (Michael Gandolfini) | Reprodução

Em teoria, esse grupo deveria coibir a ação de vigilantes. Na prática, funciona como uma polícia paralela a serviço de Fisk, mirando e neutralizando opositores políticos. A série não é nada sutil deixando claro que a Força-Tarefa é uma analogia clara a políticas de repressão estatal contemporâneas dos EUA, evocando diretamente paralelos com o ICE durante o governo de Donald Trump.

Matt Murdock (Charlie Cox) agora busca provas para incriminar Fisk e tirá-lo do cargo. O fio narrativo da temporada se ancora no naufrágio do navio Northen Star, carregado de armas contrabandeadas pelo prefeito um evento que atravessa a história do primeiro ao último episódio. É um artifício de roteiro simples, mas eficiente. A série adota uma estrutura que lembra séries procedurais clássicas: existe o “caso da semana”, mas, a cada episódio, a trama principal avança um pouco, conectando tudo de forma gradual.

Demolidor (Charlie Cox) e Karen Page (Deborah Ann Woll) | Reprodução

A temporada tem o primor da fotografia do primeiro e do último episódio da primeira temporada, dirigidos por Justin Benson e Aaron Moorhead após a reformulação da série. Apesar da mudança estética, a série prova que conseguiria ser exatamente como a série da Netflix, apenas escolheu não fazer. O episódio 5 é uma grande homenagem ao passado, que chega a aquecer o coração e matar a saudade. Uma recompensa para quem acompanhou essa jornada desde 2015.

Apesar de alguns ótimos episódios, e de coadjuvantes ganhando substância a ponto de se tornarem favoritos, a temporada muitas vezes passa a sensação de estar andando em círculos. Cada episódio resolve algo, mas, em vários momentos, a trama maior parece estagnada. Curiosamente, há casos em que eventos menores transmitem mais sensação de avanço do que acontecimentos que deveriam ser centrais. É difícil não associar isso a uma direção que, em certos capítulos, parece preguiçosa.

O roteiro também exige, aqui e ali, um certo grau de concessão do espectador, aquele tipo de história que, se você parar para pensar demais, revela furos e conveniências. Isso destoa do padrão estabelecido na fase da Netflix [com exceção da segunda temporada] e é um ponto que precisa ser ajustado no terceiro ano.

Demolidor (Charlie Cox) e Jessica Jones (Krysten Ritter) | Reprodução

Nesse segundo ano, Matt Murdock é, ironicamente, o personagem mais apagado. Não por estar mal escrito, ele permanece consistente, e esse é justamente o problema. O protagonista acaba ofuscado por um elenco secundário que brilha com muito mais intensidade. Karen Page (Deborah Ann Woll), o Mercenário (Wilson Bethel) e o próprio Rei do Crime dominam a tela. Até personagens novos, como Buck Cashman (Arty Froushan) e Daniel Blake (Michael Gandolfini), entregam momentos memoráveis e conquistam rapidamente a simpatia do público.

Tudo isso faz com que Matt Murdock, e o próprio Demolidor, pareçam menos impactantes do que já foram. Falta um arco realmente claro para o protagonista nesta temporada. O que vemos são pequenos conflitos pontuais, muitas vezes ligados às consequências da sua própria moral, algo que já vem sendo explorado desde a primeira temporada em 2015. O objetivo de derrubar Fisk, por mais central que seja, começa a dar sinais de desgaste.

Fica aqui um receio: a Marvel Studios nem sempre resiste à tentação de transformar vilões carismáticos em anti-heróis, como já fez com Loki no MCU. Existe o risco de que alguns desses personagens percam sua força justamente ao serem suavizados.

Ben Poindexter / O Mercenário (Wilson Bethel) | Reprodução

A temporada se encerra preparando um terreno extremamente empolgante para um terceiro ano. Ao que tudo indica, muita coisa deve mudar: novas dinâmicas, novos personagens e, idealmente, novos conflitos. O Rei do Crime já cumpriu seu papel contra o Demolidor, insistir nele como antagonista principal vai soar repetitivo. A série precisa começar a explorar melhor a vasta galeria de vilões do personagem.

Nesse ponto, inclusive, eu não veria problema algum no retorno do Tentáculo com a Elektra. Trazer de volta esse elemento mais místico pode ser justamente o que falta para renovar o fôlego da narrativa, resgatando um peso que nunca mais apareceu desde Os Defensores.

Karen Page (Deborah Ann Woll) e Matt Murdock (Charlie Cox) | Reprodução

Com uma segunda temporada substancialmente superior, Demolidor: Renascido se reinventa, principalmente a partir de seu desfecho, que aponta para um futuro onde repetir a mesma fórmula parece praticamente impossível. O saldo é extremamente positivo, especialmente quando comparado a desengonçada primeira temporada.

A conexão mais direta com a fase da Netflix finalmente oferece um terreno firme, com bases sólidas para os roteiristas trabalharem, algo que claramente faltava antes. A temporada se encerra sustentada por uma produção digna de cinema. No fim, a sensação é de que essa foi, de fato, a verdadeira primeira temporada.

Nota: 4,5 de 5

Últimas Notícias

A Odisseia ganha novo trailer com Robert Pattinson e Anne Hathaway
Objetos pessoais de Matthew Perry vão a leilão
Milena ganha revista solo inédita e marca novo capítulo na MSP
Toy Story 5 | Maisa e Rafael Infante integram o elenco de dublagem